Sonhos e frustrações após formatura no ensino médio

Só 17,5% dos formandos de uma turma de escola pública conseguiram fazer ensino superior

 

Danilo queria ser engenheiro civil. Hoje, é pedreiro. O sonho de Raíssa é ser bióloga marinha.
Trabalhou de atendente em padaria e está desempregada. Rodrigo esperava ser jornalista
esportivo ou advogado, mas atua como gesseiro. Já Clara decidiu que seria arquiteta e se forma
neste ano. Marco também caminha para se tornar médico, mesma profissão escolhida por
Mariana, que já se formou. O que todos eles têm em comum foi concluir o ensino médio em
2013. A diferença é que Danilo, Raíssa e Rodrigo estudaram em uma escola estadual. Já Clara,
Marco e Mariana foram alunos de um colégio particular.
Todos eles prestaram o Enem 2013 e tentaram entrar para o ensino superior por meio do Sisu
2014. Naquele ano, 25% das vagas em universidades públicas eram destinadas para quem
estudou o ensino médio também na rede pública. Porém, na Escola Estadual Pedro Aleixo,
ninguém conseguiu. A instituição atende em sua maioria moradores do aglomerado da Serra, na
região Centro-Sul da capital.
Naquela turma de 40 pessoas, 29 pessoas foram localizadas pela reportagem. A partir delas,
chegou-se ao seguinte quadro: 82,7% não conseguiram fazer um curso superior, enquanto 17,5%
o fizeram, mas em instituições particulares. Nenhuma entrou em instituição pública.
Já o Colégio Magnum, no Cidade Nova, região Nordeste, atende alunos de classe média-alta e
oferece ensino em horário integral. O mesmo levantamento, nesse caso, aponta uma proporção
totalmente diferente. Todos os 132 alunos cursaram o ensino superior, sendo 60% deles em
universidades públicas.

Essas realidades distintas entre as escolas revelam o abismo que mantém o entrave para que
pessoas de baixa renda alcancem a mobilidade social. Mais do que isso, demonstram que escolher
uma profissão no Brasil ainda é um privilégio.
Hoje, Rodrigo dos Santos Gonçalves dos Santos, 29, trabalha como gesseiro. Mas essa não era a
profissão que seguiria se pudesse escolher. Ele trabalhou um tempo no Fórum de Belo Horizonte
e se interessou pelo direito. Antes disso, tinha o sonho de ser jornalista esportivo. “O que me
dificultou para seguir esse caminho é que eu sempre tive que trabalhar. Desde os 16 anos eu
trabalho. Isso, inclusive, me atrasou a concluir o ensino médio. Depois, eu até tentei fazer
cursinho para o Enem, mas não consegui prosseguir”, disse. Hoje, ele mora junto com sua
companheira e tem um filho de 1 ano.

Seu colega Danilo Soares Pinheiro tinha bom desempenho em matemática e foi encorajado pelos
professores a fazer engenharia. “Mas nunca pude me dedicar exclusivamente aos estudos. Vi uma
boa oportunidade de ganhar um dinheiro como operário da construção civil. Me mudei para o Rio
de Janeiro e ainda acredito que um dia posso ser engenheiro. Mas é muito difícil, meu trabalho
me exige muito fisicamente, e conciliar isso com estudos é um desafio enorme”, disse.
Gravidez e depressão no caminho do ensino superior
Para além da dificuldade de seguir o caminho da educação após a formatura no ensino médio, há
quem enfrente as dificuldades para concluir os estudos na educação básica.
Sarah Aniceto, 21, descobriu que estava grávida em 2016. Entrou em depressão e não conseguiu
continuar os estudos na Escola Estadual Pedro Aleixo. Depois, teve dificuldade de conciliar as
aulas com os cuidados com a filha, que hoje tem 2 anos.
Agora, tenta retomar os estudos, com aulas particulares para conseguir concluir o ensino médio
por meio do Encceja e ir em busca do desejo de se tornar professora de sociologia: “A gente tem
oportunidades diferentes e é muito mais difícil conseguirmos seguir estudando. Mas eu já
coloquei pra mim que vou me esforçar muito para minha filha não repetir a mesma história.”
(BM)
“As oportunidades são diferentes. Imagina você acordar, ter o café da manhã na mesa e poder
ficar o dia todo por conta dos estudos. Eu preciso trabalhar.”
Rodrigo dos Santos, ex-aluno da E.E. Pedro Aleixo
“Eu tinha muita facilidade com matemática e queria ser engenheiro. Mas não consegui
estudar. Não podia parar de trabalhar, e ficava muito cansado.”
Danilo Pinheiro, ex-aluno da E.E. Pedro Aleixo

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