Clubes de livros resistem à pandemia e às tecnologias

Clubes de livros resistem à pandemia e às tecnologias

Criado pelas irmãs Letícia e Laila Pimenta, o Clube Livro BH tem como foco a periferia; em vez de um livro para analisar, o debate é sobre um tema

Por PATRÍCIA CASSESE E RAFAEL ROCHA

15/10/21 – 00h02

Criado pelas irmãs Letícia e Laila Pimenta, o Clube Livro BH tem como foco a periferia; em vez de um livro para analisar, o debate é sobre um tema.

Foto: Alexandre Mota

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A prática de reunir, em círculos e clubes, pessoas que compartilham o amor pelos livros teria surgido no século XVIII. E fato é que não parou mais. Nem o advento da internet e das redes sociais abalou a vontade dos aficionados de se reunirem para discutir um autor ou título. Aliás, nem a quarentena, quando muitas iniciativas migraram para o modo virtual – por vezes, até ampliando o público. Caso do Clube de Leitura do Belas, da Livraria do Belas. “Nas edições online, tivemos gente de outras cidades e até de fora do país”, conta Ingrid Mello, dona do espaço. Outra novidade foi a presença dos próprios autores, caso de Eliane Alves Cruz, no debate do livro “Nada Digo de Ti, que em Ti Não Veja”. 

Uma curiosidade dos círculos de leitura é que muitos operam com recortes. No Clube do Belas, por exemplo, a literatura contemporânea é o foco. “Privilegiamos que a primeira leitura da obra selecionada seja feita simultaneamente pelos participantes”, conta Ingrid, acrescentando que o título é escolhido por votação.

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Iniciativa de âmbito nacional, o Leia Mulheres chegou à capital mineira em 2015, e o encontro presencial acontecia no Sesc Palladium. Milca Alves, que divide com Mari Castro a mediação, conta que a inspiração veio da britânica Joanna Walsh, que, em 2014, lançou a campanha #ReadWomen, decidida a ler autoras durante um ano. Mas, sim, os homens podem participar das rodas. Milca ressalva: “Mais que ler mulheres, queremos ler mulheres diversas, seja em nacionalidade ou com interseccionalidades de raça e outras questões”.

O Clube do Livro BH, das irmãs Letícia e Laila Pimenta, preferiu fazer o recorte no que tange ao público. Apesar de hoje esse ser diversificado, o foco ainda é o leitor de periferia, e por uma questão prática: o preço do livro. “Ler, no Brasil, ainda é caro. Quantos pacotes de arroz uma pessoa compraria com os R$ 60 pagos por um livro? Assim, quando temos exemplares para distribuir, preferimos que vão para quem não tem como comprar”, salienta Laila. Na verdade, até o local dos encontros foi pensado para facilitar o acesso. “Antes da pandemia, era no Centro de Referência da Juventude (na praça da Estação), acessível por metrô, ônibus e próximo da rodoviária”, contam as irmãs.

Para Laila, um dos trunfos do Clube do Livro BH é o jeito descontraído que elas encontraram para discorrer sobre as obras em foco. “Pra gente, o clube é como se fosse uma pessoa, por isso, anualmente, comemoramos o seu aniversário. Nessas ocasiões, a gente costuma receber representantes das editoras, e, certa vez, uma delas batizou o clube de ‘stand-up comedy’, por ter visto as pessoas vibrando em torno dos livros, por ter se impressionado como a gente ‘vende’ a ideia de ler como algo tão bacana. E é isso mesmo. 

Eu e a Letícia entendemos que a leitura nos une e nos transforma, como Mário Quintana falou”, pondera Laila, acrescentando que desde o início as duas entenderam que era preciso fisgar o público mesmo que alguns componentes não tivessem lido o livro. “Geralmente, a Leh seleciona um tema e, na sequência, livros que o abordam, mas em gêneros diferentes, inclusive porque a gente entende que cada um tem o seu gosto. E a gente tenta fazer com que (os encontros) sejam leves e gostosos”.

Mais direcionado ainda é o Lire et S’inspirer, da Aliança Francesa BH, que veio à tona já no bojo da pandemia, em junho de 2020. Bibliotecária da instituição, Juliana Castro conta que os encontros mensais, em francês, propõem obras francófonas do acervo da biblioteca digital do Institut Français – Culturethèque e podem ser clássicos ou títulos atuais, como os dos ganhadores do prêmio Goncourt. “Desde o início, a adesão foi muito boa. Vale considerar que o clube foi lançado durante o período de isolamento para conter o avanço do coronavírus, e, até ali, muita gente não tinha familiaridade com o livro digital ou pdf, o que acabou sendo impulsionado pela pandemia”, explica.

Outra iniciativa no escaninho das novas tecnologias que veio à luz já com a pandemia em curso foram os clubes de leitura da Biblioteca Digital Tocalivros, que abarca quase 150 acervos país afora, com obras de autores diversos, de George Orwell a Machado de Assis, além de contemporâneos, discutidos via Google Meet e similares. A iniciativa, parceria da produtora de audiolivros Tocalivros e da ONG Recode, visa dotar bibliotecas de um acervo atualizado, sem que tenham que se preocupar com número de exemplares ou espaço de armazenamento. A programação dos clubes está no site www.tocalivros.com.

Redes sociais a serviço da literatura

Além dos clubes de leitura, outro meio que tem sido recorrente para a difusão da literatura são as redes sociais, onde várias páginas se dedicam a abordar títulos dos mais variados vieses. É o caso da publicitária e professora de comunicação Glória Gomide, que, em meio à pandemia, decidiu usar o seu perfil no Instagram para compartilhar suas impressões sobre leituras recentes. 

O resultado surpreendeu a ela própria, que credita o bom engajamento ao fato de ser absolutamente espontânea. “Inclusive, faço questão de deixar (na edição final) os erros (de gravação)”, frisa Glória, que também não se furta de abordar questões espinhosas, como a adaptação de trechos que hoje causariam celeuma nas reedições das obras, caso de “A Casa dos Espíritos”, de Isabel Allende, no qual um ponto controverso foi mantido em uma edição comemorativa.

Letícia Pimenta conta que o embrião do Clube do Livro BH começou nas interações com o público em seu blog, Coisas de Mineira. “Em dado momento, senti necessidade de conhecer as pessoas que deixavam comentários”, relembra, citando o momento em que começou a engendrar a roda de leitura. Outro perfil “made in Minas” bastante acessado no YouTube é o da jornalista e livreira Etiene Martins, que direciona seu foco para a literatura negra. 

Já a influencer Gabi Barbosa, que se declara “amapense-mineira”, por sua vez, tem o canal de YouTube e o perfil Uma Certa Gabi, no qual inclusive mantém um clube de leitura asiática. Ela, que atualmente reside em São Paulo, já tem mais de 19 mil seguidores, número similar ao atingido por Rodrigo Valente, do perfil ObjetoLivro, no qual, como ele mesmo define, fala de literatura de uma maneira visual, fazendo conexões entre um livro e um objeto da história lida, com fotos utilizando papéis coloridos de fundo. 

Fonte: O Tempo https://www.otempo.com.br/diversao/clubes-de-livros-resistem-a-pandemia-e-as-tecnologias-1.2555717

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Pedro Franco

Jornalista. Diretor e Editor Chefe do Jornal Da Comunidade.